Antes de estudar a problemática de Gn 6.6 no que diz “ então, se arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na terra. e isso lhe pesou no coração” vamos analisar argumentos Cristãos do Essencialismo Divino que oferecem três linhas básica a favor de sua visão: filosófica, Bíblica e prática.
Argumentos filosóficos do Essencialismo:
Os teístas tradicionais argumentam que Deus segundo sua natureza é imutável. Tomás de Aquino ofereceu três Argumentos básicos a favor da imutabilidade de Deus mencionarei apenas dois:
1.O argumento da realidade pura de Deus:
O primeiro argumento é baseado no fato de que o Deus de Pura realidade (“EU SOU”) não tem potencialidade. Pois tudo que muda tem potencialidade. Pois não pode haver potencialidade em Deus ( ele é realidade pura). Portanto , Deus não pode mudar ( Ex 3.14 ).
2.O argumento da perfeição de Deus.
O segundo argumento a favor da imutabilidade de Deus Baseia-se em sua perfeição absoluta. Tudo que muda adquire algo novo. Mas Deus não pode adquirir algo novo, já que é absolutamente perfeito. No entanto. Para mudar e preciso ganhar algo novo. Um Deus que carece de alguma perfeição não poderia ser o Deus que è.
Argumentos Bíblicos do essencialismo Divino. As escrituras apóiam o essencialismo teísta declarando que Deus é imutável por natureza.
Evidencia de Imutabilidade no AT:
O Salmista Declarou: “ No Princípio firmaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu os trocarás e serão jogados fora. Mas tu permaneces os mesmo , e os teus dias jamais terão fim ( Sl 102.25-27 )”
“ Deus Não é Homem, para que minta ; nem filho de homem, para que se arrependa... Números 23.19”
“ Aquele que é a glória de Israel não mente nem se arrepende, pois não e homem para se arrepender” I Samuel 15:29.
“ De fato, Eu Sou o Senhor, Não mudo. Por isso vocês, descendentes de Jacó, Não foram destruídos” Malaquias 3.6
Evidencia de Imutabilidade no NT:
“ Mas, se Deus é Imutável por natureza, então sua vontade está sujeita à sua natureza imutável. Assim, tudo que Deus deseja deve ser bom de acordo com sua natureza. Deus não pode desejar o que é contrario à sua natureza. Ele não pode Mentir.” Hb 6.18
Argumento prático da imutabilidade moral de Deus:
Argumento da necessidade de estabilidade moral:
Se todos os princípios morais fossem baseados na vontade mutável de Deus, então não haveria segurança moral. Como alguém poderia dedicar uma vida de amor, misericórdia ou justiça e depois descobrir que as regras mudaram e que aquelas não são as coisas certas? ”E bom observar que os princípios morais de Deus está na Palavra de Deus, escrito em duas tábuas de pedras pelo próprio dedo dEle Ex 20. O essencialismo Divino está correto baseado na vontade Imutável de Deus, mas a vontade mutável do homem estará condicionada a imutável vontade de Deus. Mesmo sabendo que Deus é moralmente imutável muitas pessoas não compreende o verdadeiro significado da imutabilidade de Deus, Muitos estão enganado com o verdadeiro dia de guarda que é o Sábado, um dos princípios morais de Deus, escrito nos dez mandamentos, estas pessoas que não guardam o sábado,normalmente aceita o domingo. Quem aceita o domingo por ocasião da ressurreição de cristo como um dia de guarda Poderá pensar que Deus é Mutável, mas isto se dá pela maneira errada de interpretar os textos Bíblicos. Se você é cristão deve afirmar que Deus é imutável e deve ser um cuidadoso estudante da palavra de Deus. Não deixe ninguém tomar sua coroa!. O homem deturpou o verdadeiro dia de guarda do sábado para o domingo, e Pedro em sua segunda carta adverte “ ao falar acerca destes assuntos, como de fato, costuma fazer em todas as suas epistolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender , que os ignorantes e instáveis Deturpam como também deturpam as demais escrituras, para a própria destruição deles”2 ped 3.16
Este material é fonte de pesquisa da enciclopédia apologética de Norman Geisler que neste trecho deixou uma brecha explicita nas entrelinhas a qual nos ajudou a compreender mais um assunto polêmico em nossos dias, que você pode ver o material completo no artigo “sábado ou domingo” neste Blog.
Objeção de que Deus mudou de Idéia:
Segundo os Essencialistas, Há exemplos nas escrituras onde Deus mudou de idéia. O texto que iremos estudar está escrito em Gn 6.6 “ então, se arrependeu o SENHOR de ter feito o homem na terra. e isso lhe pesou no coração”
Essencialistas divinos mostram que Deus não mudou realmente. Os seres humanos mudaram em relação a Deus e, portanto, só parece do ponto de vista humano, que Deus mudou. Isto acontece quando o homem compreende mal as Escrituras Sagradas.
Após estudarmos o essencialismo divino vamos aprofundar mais neste assunto estudando agora a diferença entre o arrependimento de Deus e do Homem:
O leitor da Bíblia ao chegar a passagens como Gênesis 6:6; I Samuel 15:11 e Jonas 3:10 que declaram que Deus se arrependeu e posteriormente confrontá-las com Números 23:19; I Samuel 15:29; Salmo 110:4 e Hebreus 6:17 que afirmam ser impossível que Deus se arrependa, pensará que existe grande contradição na Palavra de Deus quanto ao arrependimento divino.
Com a finalidade de dissipar dúvidas sobre a veracidade da palavra inspirada e para que declarações aparentemente conflitantes sejam esclarecidas, veremos o que é o arrependimento. Para que este objetivo seja alcançado é necessário pesquisar diretamente nas línguas originais em que o Velho e o Novo Testamento foram escritos, porque estas nos fornecem elementos convincentes.
Afirmou Billy Graham que se o vocábulo arrependimento pudesse ser descrito com uma palavra, ele usaria o vocábulo renúncia. E esta renúncia seria o pecado.
O primeiro sermão pregado por Jesus foi: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus."
Devemos a salvação unicamente à graça de Deus, mas a fim de que o sacrifício de Cristo na cruz do Calvário se torne eficaz ao crente, é preciso que ele se arrependa do pecado e aceite a Cristo através da fé.
O arrependimento é mencionado 70 vezes no Novo Testamento. Jesus disse: ". . . se, porém não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis."
Que significaria a palavra arrependimento para Jesus?
Qualquer um de nossos dicionários a definirá como "sentir tristeza, ou lamentar." Porém, a palavra no original hebraico e grego tem uma conotação muito mais ampla por significar mais do que lamentar e sentir tristeza pelo pecado.
Arrependimento na Bíblia significa "mudar ou voltar-se". A Palavra indica que deve haver uma completa mudança no indivíduo.
Pedro mostrou com seu arrependimento que estava disposto a transformar sua vida, a seguir uma nova direção. De outro lado, Judas entristeceu-se, sentiu remorso, mas não se arrependeu.
De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, "arrependimento é sinônimo de compunção, contrição. Insatisfação causada por violação da lei ou de conduta moral e que resulta na livre aceitação do castigo e na disposição de evitar futuras violações."
Como um termo teológico é o ato de abandonar o pecado, aceitando a graciosa dádiva da salvação de Deus, entrando para o companheirismo com Ele.
Arrependimento evangélico tem sido definido como mudança de pensamento, que leva a novo modo de agir. Em outras palavras, é a revolta consciente e definitiva do homem contra seu próprio pecado.
Arrependimento significa tornar-se outra pessoa. "Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de medo algum entrareis no reino dos céus". Mateus18:3.
Russell Norman Champlin assim define arrependimento:
1º) "É um ato divino que transforma o homem, mas que depende de reação positiva do homem, uma vez inspirada pela fé."
2º) "É o começo do processo da santificação."1
"Consiste de uma revolução naquilo que é mais determinativo na personalidade humana, sendo o reflexo, na consciência, da radical mudança operada pelo Espírito Santo por ocasião da regeneração."2
Arrependimento no Velho Testamento
No hebraico são encontrados dois vocábulos para expressar a idéia de arrependimento.
É o arrependimento de Deus e corresponde ao grego metamélomai. As seguintes passagens bíblicas confirmam a sua existência. Gênesis 6: 6 e 7; Êxodo 32: 14; Jonas 3:9 e10.
Deus é imutável em seu ser, na sua perfeição e em seus propósitos. O arrependimento divino não traz mudança do seu ser, do seu caráter, mas apenas mudança em sua maneira de tratar com os homens. O arrependimento de Deus é uma referência à alteração que se realiza na sua relação para com o homem. O exemplo dos ninivitas nos ajuda a compreender o arrependimento de Deus. A cidade não foi destruída porque o povo se arrependeu de suas más obras. Deus mudou o seu tratamento devido à mudança operada no povo. O arrependimento de Deus foi uma conseqüência do arrependimento do povo
II. – arrependimento do homem.
o vocábulo hebraico corresponde ao grego metanoéo.
A palavra significa girar, voltar ou retornar, e é aplicada quando a pessoa deixa o pecado e se volta para Deus de todo o coração.
Se pecado etimologicamente significa falhar em atingir o alvo, desviar-se do caminho certo; arrepender-se é retornar ao caminho correto ou total retorno da pessoa a Deus.
Arrependimento em o Novo Testamento
Assim como há no hebraico duas palavras, uma para expressar o arrependimento divino e outra o humano, existem também em grego duas diferentes palavras para transmitir estes dois tipos de arrependimento.
I. O verbo usado em grego para o arrependimento de Deus é – metamélomai.
Metamélomai pode ser traduzido por pesar, sentir tristeza, remorso, mudança de sentimento. Ter cuidado ou preocupação por alguém ou alguma coisa. Etimologicamente significa mudar uma preocupação por outra.
Possuindo Deus caráter e atributos imutáveis Ele é perfeito, logo não pode mudar nem para melhor nem para pior. No entanto, a imutabilidade divina não consiste em agir sempre da mesma maneira. Há casos e circunstâncias que podem ser alterados.
Strong nos esclarece sobre a imutabilidade de Deus:
"Deus, embora imutável, não é imóvel. Se Ele, coerentemente, segue um curso de ação segundo a justiça, Sua atitude precisa ser adaptada á toda mudança moral nos homens. A imutável santidade de Deus requer que Ele trate os ímpios diferentemente dos justos.
"Quando os justos se tornam ímpios, seu tratamento a respeito destes deve mudar. O sol não é volúvel ou parcial porque derrete a cera, enquanto endurece o barro; a mudança não está no sol, mas nos objetos sabre os quais brilha. A mudança no tratamento de Deus para com os homens é descrita antropomorficamente como se ocorressem mudanças no próprio Deus."3
II. – metanoéo é o verbo usado em grego para o arrependimento do homem.
Dicionários e comentários nos informam que significa:
a)Uma mudança de mente, de pensamento
b)Literalmente significa pensar diferentemente.
c)Teologicamente a palavra inclui não somente mudança da mente, mas uma nova direção da vontade, propósito e atitudes.
O verbo metanoéo é usado em o Novo Testamento 32 vezes.
O arrependimento inclui três aspectos:
1º) O aspecto intelectual, ou seja, o reconhecimento, pelo homem, do erro de sua vida, sua culpa diante de Deus, sua incapacidade para, em suas próprias forças agradar a Deus. Sendo o homem um ser intelectual, Deus somente se agrada em ser adorado por meio de um processa racional.
2º) O aspecto emocional – tristeza pelo seu pecado como uma ofensa contra um Deus santo e justo. Os sentimentos não são equivalentes ao arrependimento, mas podem conduzir a um verdadeiro arrependimento, porque o verdadeiro arrependimento não pode provir de um coração frio ou indiferente.
3º) O aspecto da vontade ou volitivo – mudança de propósito, resolução íntima contra o pecado e disposição para buscar de Deus o perdão, purificação e poder. Este é o mais importante dos elementos, pois Deus pode apelar à pessoa para se converter, chamá-la ao arrependimento, mas como Deus dotou o homem com o livre arbítrio, somente este pode ou não aceitar o perdão divino; somente o próprio homem pode escolher arrepender-se ou não.
Apesar das ponderações anteriores, o arrependimento, no mais profundo sentido está além das forças ou do poder humano. Ellen G. White declara: "O arrependimento, bem como o perdão, são dons de Deus por meio de Cristo."4
É importante compreender (como insiste Morris Venden, o autor de Meditações Matinais, 1981, nos dias 22 a 31 de maio) esta verdade fundamental. Não podemos primeiro arrepender-nos para depois ir a Cristo. Devemos ir a Ele como estamos e Ele irá transformar a nossa vida.
Paulo em Romanos 2:4 nos asseverou com muita objetividade que é a bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento.
O arrependimento é um passo decisivo na vida do cristão, desde que a Bíblia no-lo apresenta como uma das condições para a salvação. As seguintes citações bíblicas corroboram para esta afirmação:
Mat. 3:1 e 2 – "Naqueles dias apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia, e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus."
Mat. 4:17 – "Daí por diante passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus."
Luc. 13:3 – "... Se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis."
A Pena abalizada de Ellen G. White confirma a nítida distinção entre o arrependimento divino e humano.
"O arrependimento de Deus não é como o do homem. 'Aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem para que se arrependa.' I Samuel 15:22. O arrependimento de Deus implica uma mudança de circunstâncias e relações. O homem pode mudar sua relação para com Deus, conformando-se com as condições sob as quais pode ser levado ao favor divino; ou pode pela sua própria ação, colocar-se fora da condição favorável, mas o Senhor é o mesmo, ontem, hoje e eternamente. Heb. 13:8."5
"O arrependimento quando referente a Deus significa uma mudança de atitude, ou um voltar atrás. Nesse sentido é que a expressão é usada em I Sam. 18:8. Deus não modifica seu propósito, porém o homem, sendo um agente moral livre, pode modificar a realização do propósito divino. O relato de Jonas sobre a destruição de Nínive nos mostra que houve uma mudança de atitude com relação a Deus, e Ele também mudou Seu procedimento, isto é, arrependeu-se do mal de que lhes ameaçara."6
Dois Exemplos Distintos de Arrependimento Encontrados na Bíblia
1º) O arrependimento de Pedro.
Após a negação do Mestre, quando o olhar compassivo e perdoador de Cristo lhe penetrou na alma, ele se rendeu à influência benfazeja do amor. Lucas 22:62 afirma que ele chorou amargamente. Esta é a tristeza que opera o arrependimento que conduz à salvação – II Cor. 7:9-10. O arrependimento de Pedro foi o metanoéo que modificou toda a sua vida. Ele estava triste por causa do seu pecado. Sua trágica queda por ocasião do julgamento de Cristo, seguida de seu arrependimento e subseqüente reabilitação, aparece como sendo o ponto de conversão de sua vida e caráter. Daí por diante, e com uma única exceção (Gál. 2:11-13), ele nos é apresentado como nobre apóstolo, com dignidade, coragem, prudência e firmeza de propósito.
2º) O arrependimento de Judas.
Em Mateus 27:3 se encontra o verbo metamélomai, que em algumas traduções aparece traduzido por arrepender-se, mas o seu arrependimento foi somente no sentido de tristeza ou remorso pelo seu pecado, e não no sentido de mudança de vida, de abandono do pecado. Essa tristeza segundo o mundo é a que opera a morte (II Cor. 7:10).
Judas não sentiu profundo pesar por haver traído a Cristo, mas tristeza por perceber que seus planos falharam.
O verbo metamélomai foi usado porque o seu arrependimento foi apenas mera tristeza, desespero, sem nenhuma mudança da mente (metanoéo).
Cristo sabia que o traidor não se arrependera verdadeiramente.
A pena inspirada confirma esta declaração:
"Até dar esse passa Judas não passara os limites da possibilidade de arrependimento. Mas quando saiu da presença de seu Senhor e de seus condiscípulos, fora tomada a decisão final. Ultrapassara os termos."7
A idéia principal na afirmação de que Deus se arrependeu, nada tem a ver com falhas e pecados como acontece com o homem, mas apenas a sua mágoa com o mau procedimento humano e o seu desejo de sustar o curso do mal.
Rendamos sempre graças a Deus porque no seu infinito amor ele se entristece com o nosso pecado e muda o seu tratamento, quando nos arrependemos de nossas obras más.
Deus é imutável, mas a mutabilidade humana faz com que ele mude o seu trato para conosco.
Referências
1.O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, vol. III, pág. 68.
2.O Novo Dicionário da Bíblia, vol. 1, pág. 141.
3.A Teologia Sistemática de Strong, pág. 124.
4.Testemunhos Seletos, de Ellen G. White, vol. II, pág. 94.
5.Patriarcas e Profetas, de Ellen G. White, pág. 630.
6.SDA Bible Dictionary
7.O Desejado de Todas as Nações, de Ellen G. White, págs. 654 e 655.
Caminhando para última parte deste importante estudo vejamos a linguagem empregada em Gn 6.6
A LINGUAGEM usada aqui é ANTROPOMÓRFICA
O Dicionário Aurélio define Antropomorfismo como “Tendência para atribuir, ou a forma de pensamento que atribui formas ou características humanas a Deus, deuses, ou quaisquer outros entes naturais ou sobrenaturais.”
Este conceito se faz importante pois verbo naham em Gênesis 6:6 é um exemplo do uso antropomórfico na bíblia. O verbo é a representação em linguagem humana do sentimento divino ante as escolhas erradas feitas pela humanidade. O Novo Comentário da Bíblia declara que “falar de Deus como capaz de arrependimento e de experimentar tristeza é, admitidamente, o uso de linguagem antropomórfica, mas tal linguagem, a despeito disso, em realidade fala de uma real experiência da parte de Deus.” Ainda o autor enfatiza que “o Deus revelado nas Escrituras é capaz de sentir tristeza e de ser entristecido. Ele tem reações reais para com a conduta humana.”
Esta mesma idéia é apresentada por HOFE, em seu livro O Pentateuco:
“Arrependeu-se o SENHOR”. Não se arrependeu no sentido de mudar suas atitudes básicas, porém sentia tristeza ao ver o pecado... Amiúde a bíblia atribui a Deus traços humanos: olhos, ouvidos, mãos, ou atividades humanas. A isto se dá o nome de antropomorfismo. Não quer dizer que seja corpóreo; antes, a linguagem se acomoda ao entendimento humano.
Portanto, entender Gênesis 6:6 como um Deus que fica triste (naham), é apenas identificar a linguagem antropomórfica utilizada pela bíblia para traduzir o infinito, Deus, para seres finitos, o homem. Esta expressão "é simplesmente uma indicação, em linguagem humana, de que a atitude de Deus para com o homem ao pecar é necessariamente diferente da atitude de Deus para com o homem ao obedecer.”
Quando o autor de Gênesis afirma que “Deus se arrependeu”, segundo KISSLING, “esta afirmação é encarada como antropomorfismo, ou seja, falando de Deus como se fosse uma pessoa humana, para que ela O compreenda melhor. Tal linguagem é necessária para nós, porém não representa perfeitamente à Deus, pois Ele “não experimenta emoções da perspectiva do nosso fluxo limitado e imperfeito de emoções humanas” , então “o arrependimento de Deus é uma expressão antropomórfica para a dor do amor divino” (Calvino).
HOFE, Paul. O pentateuco. 9º ed. São Paulo: Editora Vida, 1999. pág. 98.
DAVIDSON, F. (Ed.) et al. O novo comentário da bíblia . São Paulo: Vida Nova, 1995. Pág. 24.
KISSLING, Paul J. Genesis. Joplin, Mo. : College Press Pub. Co., 2004 (The College Press NIV Commentary), S. 270
KEIL, Carl Friedrich ; DELITZSCH, Franz: Commentary on the Old Testament. Peabody, MA : Hendrickson, 2002, S. 1:88
Portanto, “o arrependimento que aqui é atribuído á Deus, não devidamente pertence a Ele, mas se torna importante para a nossa compreensão dele.” O antropomorfismo se torna importante entre a relação homem e Deus já que “não podemos compreender-lhe como Ele é, é necessário que, para nós que Ele, num certo sentido transforme-se.”
.
O USO DE SHUV E NAHAM.
Se Deus é Onipotente, como pode então arrepender-se de algo? Entender Gênesis 6:6 como Deus voltando atrás é violar a idéia de um Deus que sabe de tudo desde o começo?
Diante destas questões é importante analisarmos duas palavras existentes no vocabulário hebraico para expressar a idéia de arrependimento. Naham, como já analisamos, geralmente é usada para atribuir ações divinas, em sua maioria para expressar mudança de sentimento em relação à algo. Shuv é o verbo sempre usado para expressar ações humanas e nunca é usado para Deus, analisaremos o mesmo abaixo.
bwv (shuv) –“voltar, tornar-se, regressar, reverter, retroceder, converter-se, voltar atrás,...”.
A idéia principal deste verbo é o arrependimento no sentido de alguém que fez ou está fazendo algo errado, voltar atrás. Esta idéia é apresentada em II Reis 17:13 quando “O SENHOR advertiu a Israel e a Judá por intermédio de todos os profetas e de todos os videntes, dizendo: Voltai-vos(shuv) dos vossos maus caminhos...”. O povo estava seguindo por um caminho errado então necessitava voltar para o que era correto.
Ainda em II Reis vemos a mesma ocorrência no capítulo 23 verso 25: Antes dele (Josias), não houve rei que lhe fosse semelhante, que se convertesse(Shuv) ao SENHOR de todo o seu coração...”
Esta mesma abstração é encontrada em outros textos: II Cr 6:26; 7:14; 15:4; 30:6; Ne 1:9; Sl 78:34; Is 19:22; 55:7; Jr 3:12, 14, 22; 18:8; Ez 18:21; 33:11, 14; Dn 9:13; Os 14:1, 2; Jl 2:13; Jn 3:10; Zc 1:3,4; Ml 3:7.
A LXX traduz shuv como ( epistrefwn), “voltar para trás.” Naham é traduzido por ( metamelomai), “mudança de mente, arrepender”.
A idéia de alguém “voltar atrás” é expressar pelo verbo Shuv, que sempre é atribuída a seres humanos. Naham, porém, é usado a Deus para representar antropomorficamente a mudança de sentimento divino em relação a algo ou alguém.
Portanto, precisamos aceitar que “é impossível conceber o Deus onisciente a lamentar-se por algum falso movimento por ele feito.” Gênesis 6:6 não é contrário a esta idéia. Deus sabia do dilúvio
CALVIN, John. Calvin's Commentaries: Genesis. electronic ed. (Logos Library System; Calvin's Commentaries), S. Gn 6:6
DICIONÁRIO hebraico-português & aramaico-português . Nelson Kirst. São Leopoldo; Petrópolis: Sinodal: Vozes, 1988.
BUTTRICK, George Artur. The interpreter’s dictionary of the bible. Vl. 4. Nashville, New York: Abingdon Press 1957. pg. 33
antes de criar o ser humano, mas por causa do livre arbítrio dado aos homens Ele não os restringiu de suas escolhas. Porém quando o momento do homem tomar a decisão errada chegou, o Senhor não (Shuv) volta atrás em seu caminho, Ele é Onisciente, mas Deus (Naham) se entristece pela decisão que seus filhos escolhem.
O Comentário Bíblico Adventista explica que:
“A força das palavras "se arrependeu (Naham) Jehová", pode deduzir-se da declaração explicativa "lhe doeu em seu coração". Isto mostra que o arrependimento de Deus não pressupõe falta de conhecimento prévio de sua parte nem variabilidade em sua natureza ou propósito. Neste sentido Deus nunca se arrepende de nada (1 Sam. 15: 29). O "arrependimento" de Deus é uma expressão que se refere à dor do amor divino ocasionado pela pecaminosidade do homem. Apresenta a verdade de que Deus, em consonância com sua imutabilidade, muda de posição em respeito ao homem que mudou.”
Gênesis 6:6, no qual declara que o homem era “continuamente mau”, é um contraste com o capítulo 1:31 do mesmo livro, no qual encontramos a declaração, após o término da criação do planeta, de que “tudo era bom”. Esta dualidade nos leva a imaginar a resposta de Deus que “é amor” ao ver um quadro tão distante de Seu plano original. Tal reação é descrita pelo verbo hebraico naham encontrado no verso seis do capítulo seis.
“Deus se arrependeu (naham)”, o verbo naham, neste contexto de decepção, quer ressaltar um sentimento de tristeza da parte de Deus pelo que se tornou sua criação. “A corrupção e violência dos homens doeram a Deus e lhe pesava havê-los criado.”
Não podemos esperar outra atitude de Deus, a não ser o sentimento inverso manifestado na criação. Se quando tudo era perfeito Deus ficou feliz, quando então tudo estava mau, Ele se entristeceu (naham), por ter feito o homem.
Este entristecimento não deve ser entendido como se a ação divina ao ter criado o ser humano fosse algo errado e isso levasse Deus a se arrepender do que fez. O verbo naham é uma linguagem antropomórfica para descrever o Criador triste pelo caminho que sua criação escolheu.
Se entendermos o capítulo seis de gênesis nesta perspectiva, veremos a beleza da missão de Noé.
DAVIDSON, F. (Ed.) et al. O novo comentário da bíblia . São Paulo: Vida Nova, 1995. pg. 24, 25.
DAVIDSON, F. (Ed.) et al. O novo comentário da bíblia . São Paulo: Vida Nova, 1995. pág. 37.
Seu pai, Lameque, afirma que Noé viria “consolar” (Gen 29). O verbo no hebraico usado para consolar é naham. Esta é a primeira vez que aparece este verbo na bíblia. A segunda vez em que naham é usado é em Gênesis 6:6, para expressar a tristeza de Deus pelo que se tornou a humanidade.
Assim, como afirma SAILHAMER Gênesis 6:6 e 5:29 fazem parte de um paralelo. O primeiro mostra o profundo entristecimento de Deus (naham), e o segundo mostra a resposta para o sofrimento divino, Noé, que vem com o propósito de consolar (naham).
“O sofrimento e a dor do pecado humano não era uma coisa que somente os seres humanos sentiam. Deus mesmo sofria com o pecado do homem... Noé trouxe conforto não somente para a humanidade, em sua dor, mas também para Deus.”
Descrevendo esta dor MOODY, declara que,
“Naham na forma nifal descreve o amor de Deus, que sofreu desapontamento de fazer partir o coração. Literalmente, fala de suspirar devido à dor profunda... Deus experimentou tristeza que Lhe feriu o coração quando olhou para a trágica devastação que o pecado produzira. A obra de Suas mãos fora distorcida e arruinada.”
Pelo estudo do contexto de Gênesis 6, no qual descreve a degeneração da raça humana antediluviana, entendemos que a melhor compreensão para o verso 6 é de que “Deus se entristeceu” e não que “... se arrependeu”. Pois a idéia de que Deus que se entristece harmoniza-se com o contexto tanto do dilúvio quanto do nascimento de Noé que, segundo o sentido de seu nome, tem a missão de “consolar” (Gen 5:28-29) a humanidade e Deus.
O conceito de Deus se arrependendo em Gênesis 6, além de contrastar-se com outros textos da bíblia, contraria a onisciência de Deus e o contexto em que o texto está inserido.
"Arrependido", não sugere que Deus mudou sua mente, porque Ele é imutável [Mal. 3:6]. Pelo contrário, isso significa que Deus estava “triste.”
Ao invés de um Deus tirano, que se “arrepende” de ter criado seres tão desobedientes, a mensagem do capítulo seis de Gênesis, é a de um Pai que está com o coração profundamente triste, pois seus filhos
SAILHAMER, John H. The pentateuch as narrative. Michigan: Zondervan Publishing House, 1992. pág. 124.
Idem
PFEIFFER, Charles F; HARRISON, Everett Falconer; KRIEVIN, Yolanda M. Comentario biblico Moody . São Paulo: Impr. Batista Regular, 1993-1995. Pág. 30
WALVOORD, John F. ; ZUCK, Roy B. ; Dallas Theological Seminary: The Bible Knowledge Commentary : An Exposition of the Scriptures. Wheaton, IL : Victor Books, 1983-c1985, S. 1:37
escolheram o caminho da morte, mas ao mesmo tempo apresenta um Deus que é consolado quando encontra um homem como Noé, “homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos.” (Gen 6:9).
“A menção da dor divina ante o estado depravado do homem é uma indicação comovedora de que Deus não odiou ao homem. A humanidade pecadora enche o coração divino com profunda dor e compaixão. Desperta todo o insondável oceano de simpatia em favor dos pecadores de que é capaz o amor infinito.”
COMENTARIO biblico adventista del septimo dia: la santa biblia con material exegetico y expositorio. Francis D Nichol, Victor E. Ampuero Matta, Nancy W. de Vyhmeister. California: Pacific Press Publishing Association, 1981.
02/05/2010
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